De Empresário para Empresário: Carlo Barbieri

De Empresário para Empresário: Carlo Barbieri

 

Uma entrevista por semana, de empresário para empresário. O empreendedor Diego Sampaio faz perguntas relevantes e esclarecedoras para brasileiros que ousaram encarar um mercado internacional e não pararam até alcançar suas metas.

Mr.-Carlo-Barbieri

Na entrevista de hoje, Carlo Barbieri, Presidente da Oxford, a maior empresa de consultoria brasileira nos Estados Unidos. O grupo é composto de empresas e executivos que auxiliam empresários à adentrar o mercado americano. Um de seus empreendimentos é a Shrimp House, a versão americana da famosa Vivenda do Camarão,  rede de restaurantes especializado em frutos do mar do Brasil.

Barbieri é formado em Economia e Direito e fez mais de 60 cursos de pós-graduação e especialização no Brasil e no exterior. Já viajou por mais de 70 países, dividindo sua experiência profissional em conferências. Confira abaixo a entrevista com esse experiente empresário.

A voz da experiência para quem deseja adentrar no mercado americano – Carlo Barbieri

 

A Oxford é uma empresa respeitada na Flórida pela capacidade em desenvolvimento e expansão de produtos e empresas nos EUA. Como foi o processo de expansão e consolidação da empresa?

 

A Oxford nasceu há 42 anos no Brasil e está nos EUA há 25 anos. Foi um crescimento gradual e sustentado, que se iniciou na área de comércio exterior e, gradativamente, foi incorporando outras áreas de consultoria, em particular pesquisa de mercado, análise da concorrência e planos de negócios, indo também para blindagem patrimonial e imobiliária. Hoje somos 10 empresas com 152 servicos e 61 colaboradores.

 

A Shrimp House foi pensada para brasileiros, ou seu conceito é voltado ao consumidor americano, ou latino?

 

Foi erroneamente pensado em ser sustentado pelo público brasileiro.

 

Inicialmente a rede Shrimp House tinha participação da rede brasileira Vivenda do Camarão. Como se deu o início das negociações? A Oxford foi procurada pela Vivenda do Camarão ou o processo foi contrário?

 

Nós já prestávamos serviços para a Vivenda na área de FDA. Daí veio o fato de sermos um contato para a abertura da empresa deles nos EUA.

 

Já entrevistamos o CFO do Giraffas, João Barbosa, e ficou claro que para ter sucesso nos EUA não é possível somente traduzir cardápios. É preciso adaptar-se e repensar a empresa, seus produtos e processos. Quais foram as principais dificuldades da empresa neste processo?

 

Respeito e endosso a opinião do João. Infelizmente, o empresário brasileiro de sucesso acha que tudo que dá certo lá, tem apenas que ser repetido aqui. Falta humildade, realismo e capacidade de entender que as coisas aqui são diferentes.

  • Não se vende e atrai-se clientes por cardápio num praça de alimentação, e sim com amostras;

  • O principal cliente na praça são os funcionários do próprio Mall, o que demanda preços adequados;

  • O americano gosta de ver o que está consumindo ser feito e servido diretamente;

  • Não gosta de comida congelada;

  • Não gosta de uma variedade ampla de pratos, prefere combos;

  • Os sabores aqui são diferentes e os preços tem que ser competitivos;

  • A importação de pratos é absurdamente cara (no Brasil a comida é mais cara)

  • Há forma de alimentos que o americano não consome, como rabinho de camarão e camarão com as veias;

  • As quantidades são maiores aqui, e o americano gosta de levar o saldo para casa;

  • Há comidas, como sanduíche, que são parte da cultura aqui;

  • Há pratos regionais dentro da própria Florida;

  • O americano não tem o habito de ir passear no shopping, e fazer um “programa”. Ou seja, na maioria das vezes, quem vai à praça está com pressa;

  • Ele busca nas telas informações fáceis e práticas e não um programa de TV;

Essas visões, e muitas outras, infelizmente não são de aceitação fácil. Assim, os  “inimigos azuis” dão mais trabalho do que os vermelhos!

 

Qual foi a importância de trazer um profissional da Vivenda do Camarão para, de forma definitiva, ajudar na estruturação da operação americana?

 

Foi muito importante, mas o ideal é ter estas pessoas como consultores, e não como executivos, pois trazem um DNA forte da origem.

 

Diferente do Brasil, onde as praças de alimentação de shoppings são ocupadas por restaurantes com ticket médio acima do que é praticado em lojas de rua, nos EUA as operações em praças de alimentação geralmente são de preços mais populares. O Giraffa’s, Madero e Spoleto que também estão por aqui optaram por lojas de rua. Por que optaram por este caminho, uma vez que suas lojas geralmente estão dentro de shoppings?

 

Por um erro de avaliação de quem pensa que aqui tem que ser tudo igual lá, e que não há necessidade de consultoria prévia ou de adaptação.

 

Recentemente a Shrimp House comunicou o encerramento de 3 de suas lojas nos Estados Unidos. Quais fatores neste processo de testes e avaliações os levaram a tomar tal decisão?

 

O alto custo do aluguel nos Shoppings, e o fato do produto ser inadequado para a venda nos mesmos.

 

Quantas lojas vocês possuem atualmente?

 

Atualmente 3, mas devemos transformar o projeto em lojas de rua, abandonando a posição nos Shoppings.

 

Qual é a participação da Simon Malls na operação da Shrimp House? Ela é um parceira estratégica ou possui participações na rede?

 

Não. O Simon é apenas um Mall que pensa na rentabilidade de seus espaços.

 

A operação do Town Center em Boca Raton tinha uma característica pouco comum em praças de alimentação: um salão anexo com serviço completo (onde o pedido é feito na mesa através de garçons). Este é um modelo que pretendem voltar a testar ou focarão-se em lojas menores?

 

O foco estará em lojas de rua com serviços, como o do Town Center.

 

Qual é o planejamento para os próximos 3 anos?

 

Fechar as lojas do Mall e iniciar a abertura de lojas de rua, com cardápios mais adequados à realidade americana e local.

 

Muitas redes de franquias têm buscado expansão fora do Brasil, e os EUA é o destino preferido. Além do fator econômico, quais são os outros fatores levados em consideração pelos empresários brasileiros?

 

Ha varios fatores. No Brasil temos: Ambiente recessivo; consequente perda do poder aquisitivo da população; limite de expansão no pais; instabilidade política; insegurança jurídica; legislação trabalhista anti-empresarial, entre outras coisas.

 

Já nos EUA, temos: Estabilidade econômica, segurança jurídica; mercado consumidor forte; regras claras na área trabalhista e legislação tributária simples e favorável.

 

A Oxford possui tradição em emissão de visto EB5, sendo a maior intermediadora de vistos deste tipo junto ao governo americano, correto? Assim com o Orlando City e o Giraffa’s, quais são os planos para utilizar a Shrimp House como forma de obtenção de visto para imigração?

 

O visto EB-5 está aberto à qualquer empreendimento novo que gere 10 empregos. É a melhor forma de alavancagem financeira para projetos, e a forma mais segura de se obter o visto Green Card. Nesse ano fizemos quase 10 projetos novos e atendemos a consulta de cerca de 100 pessoas interessadas neste visto.

 

Falando sobre o EB-5, quais são os principais fatores a serem levados em consideração no momento de se planejar para a obtenção deste visto?

 

O principal fator é saber se se credencia. Para isto 2 pontos são importantes: Clara origem dos recursos e não ter problemas com a justiça.

 

O segundo desafio é saber que não há como o solicitante ficar entrando nos EUA após a solicitação do visto. Se já tiver outro visto de permanência, tem que ficar aqui. Se não, tem que aguardar no Brasil.

 

É possível investir em qualquer tipo de empresa para obter o EB-5?

 

Sim, sem problema, desde que a empresa gere os 10 empregos que a lei exige.

 

Quais outras operações brasileiras a Oxford está trazendo para os EUA?

 

Várias, algumas ainda em sigilo até a abertura, mas posso dizer que vão de churrascaria à vestuário, passando por quiosques e indústria pesada. Entrando até em lojas especializadas em soccer, e na área de museus!

 

Falando agora sobre o Carlo, conte-nos um pouco sobre sua trajetória nos EUA e seu relacionamento com a comunidade brasileira aqui residente.

 

Vim para cá há 25 anos, porem nos 7 primeiros fiquei alternando entre 3 dias aqui e 4 no Brasil. Um bom desafio! Com a vinda definitiva, fixei residência em Boca Raton e abrimos uma grande base no Miami Free Zone, com um centro de exposição de produtos brasileiros (700 pés quadrados)  feito em conjunto com a Amcham de São Paulo.

 

Com a Apex abrindo no mesmo local, e com um serviços semelhante, não tinha sentido concorrer com um ente publico que oferecia melhores preços. Daí resolvemos partir para Boca, com escritório apenas na parte de consultoria.

 

Hoje estamos em escritório próprio com 3700 pés quadrados, onde abrigamos parte das empresas e nossos colaboradores.

 

Temos o maior carinho para com a comunidade brasileira estabelecida aqui, onde ajudamos com a criação de cursos, formando entidades e apoiando, na medida do possível.

 

Se pudesse citar apenas 3 pontos fundamentais que os empresários brasileiros não devem deixar de prestar a atenção no momento de entrar no mercado americano, quais seriam?

 

  1. Saber o que querem;

  2. Saber o que vão encontrar pela frente. e planejar sua entrada;

  3. Ver se suas  atividades tem competitividade para este mercado, e se têm recursos para seu empreendimento.

 

* Foto: Carla Guarilha – Estadão

De Empresário para Empresário: Carlo Barbieri – By Diego Sampaio

Diego Sampaio é um empreendedor serial e sócio da DELTACARD CORP, investidora do You S/A. Curioso e palpiteiro, adora aprender sobre negócios, descobrir o que funciona (e o que não funciona) e dar palpites em negócios alheios!

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