O defunto não está morto

Artigo Publicado na Revista Mercado Comum (Edição 217, página 205)
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Várias pessoas no Brasil, por ignorância, má fé ou ideologia, tentam passar a impressão de que os EUA já são um país morto e só não foi enterrado por falta de espaço no túmulo.

Nesta sequência de artigos que fomos convidados a escrever, como correspondente da Revista Mercado Comum nos Estados Unidos, trataremos de compartilhar com os leitores pontos positivos e negativos desta nação, sempre com objetividade e honestidade.

Temos de convir que este gigante do norte muito dificilmente perder á sua posição como primeira potência do mundo, em curto prazo, nem talvez neste século. Do ponto de vista geopolítico, a sua situação é privilegiada, com costa e portos que dão para os oceanos Pacífico e Atlântico que alcançam mais de 80% do PIB mundial.

Se levarmos em conta os aspectos militares, seus investimentos nesta área superam 50% do que o resto do mundo gasta nesta rubrica e nem de longe sua fantástica tecnologia bélica é conhecida, sequer por seus aliados. Sua marinha é a única que controla todos os oceanos, seu sistema de satélites e informações conhecem cada comunicação feita em qualquer parte do planeta.

Se considerarmos os aspectos econômicos, a despeito de suas dificuldades e erros que se somam há décadas, segue sendo o maior PIB global, superando o segundo colocado em quase quatro vezes. Sua capacidade e velocidade de transformação e adaptação ainda são paradigmas.

Apesar de seus déficits comerciais históricos, é o maior importador e um dos maiores exportadores do mundo. A taxa média de impostos de importação é baixíssima, pois não tem finalidade de arrecadação e as limitações ocorrem por questões de saúde, segurança ou políticas. Neste último caso, em geral, há uma busca pela reciprocidade de tratamento.

Suas terras são majoritariamente agricultáveis e vale a comparação com a segunda economia do mundo, a China, em que apenas 9% de seu território e útil para o plantio. Sua população é grande o suficiente para garantir sua ocupação territorial e sua dinâmica econômica porém, não tão grande que haja um custo social para sua manutenção. Seu sistema legal é simples e pró livre iniciativa. Abre-se uma empresa por internet e fecha-se apenas, não se informando as autoridades a sua intenção de prosseguir com a mesma.

Embora com variação em cada estado e grandes garantias dadas às minorias, doentes e necessitados, a legislação trabalhista é impulsionadora da produtividade. Na Flórida, por exemplo, inexistem 13º salário, férias de 30 dias, seis meses de descanso materno, nem paterno. Na demissão, são pagas as horas trabalhadas até o minuto da demissão apenas. Com isso, o empregado tem que se dedicar ao trabalho, efetivamente. Por outro lado o empregador tem que dar o melhor para seus colaboradores para não perdê-lo para o mercado, pois sabe que a mão de obra é a base para o seu sucesso. Daí a participação em lucros, férias proporcionais ao tempo trabalhado, dias de folga para dedicação a necessidades pessoais ou ida ao médico ou dentista são normais nos critérios de admissão das empresas.

Outro aspecto que deve ser destacado neste país é o da justiça e segurança. O caso do diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, bem ilustra como funciona a justiça por aqui. Não há privilegiados.

Conto uma experiência pessoal. Logo que mudei para os EUA li nos jornais locais que três jovens haviam roubado, atropelado e matado uma senhora. Isto foi numa terça-feira. Na quinta, dois dos assassinos foram presos (um de 14 e outro de 16 anos) e na sexta o terceiro, de 18 anos foi também encontrado. Em seis meses, os três foram condenados à morte, independentemente de serem menores e afrodescendentes, servindo de aviso aos outros delinquentes e realçando o papel da segurança à sociedade. Não me cabe julgar se é certo ou não tal punição a menores ou membros da minoria, mas destacar a importância da velocidade da justiça e a agilidade da polícia.

Se há muitos outros pontos positivos e importantes a serem destacados, a lista de pontos negativos e desafios também não fica atrás.

Seguramente o primeiro grande desafio está na educação. O domínio dos sindicatos na estrutura educacional estrangulou a modernidade do ensino, condenando a população menos favorecida, que estuda em escola pública, a um conhecimento medíocre e antiquado.

As limitações de entrada e permanência de inteligências de outros países, após os atentados de 11 de setembro de 2001, além de tirarem recursos das Universidades em cursos de master ou doutorado, estancou uma fonte fantástica de novos valores e conhecimentos que abasteciam o país e lhe davam a liderança tecnológica massiva do mundo. Hoje, esta liderança está ameaçada, se não perdida.

As guerras externas têm drenado recursos da economia e aumentado o sentimento de rejeição à nação americana em muitas partes do mundo, diminuindo seu prestigio e aumentando o custo de entrada de seus produtos.

A radicalização política tem dividido o país, que não consegue encontrar uma unidade interna importante e necessária para superar o grave problema econômico que atravessa.

A mudança nos conceitos de crédito, ocorrido em função da quebradeira geral após o estouro da bolha imobiliária, ainda não foi absorvida e tem afetado a retomada do crescimento.

Os bancos receberam o dinheiro do governo, entesouraram e usaram no para seu benefício, não o transferindo para a população em forma de crédito. Sem este, que sempre foi o impulsionador da economia, freia se o consumo e a construção, cerceando-se a criação de empregos.

Por outro lado, os empregos de século passado estão desaparecendo e os desempregados da atualidade, em geral, não possuem “skills” para competirem no mundo moderno, com seu nível de exigências cada vez maior.

Enfim, há ainda muito para se falar e entender desta grande nação, tema sobre o qual nos debruçaremos nos próximos artigos.

Carlo Barbieri

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