Brasil, buraco 2020

buracoPublicado no Jornal Diário do Comércio, Setembro de 2013

por Samir Keedi

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As pessoas  estão sendo iludidas e fica tudo por isso mesmo. Enxerga-se a árvore em detrimento da floresta. Podemos dizer que estão vigiando determinadas árvores e que estas não estão sendo mortas. Enquanto isso, a floresta está em pleno desmatamento. É essa exatamente a situação que estamos vivendo. Se não, vejamos.

Para começar, o País considera,  segundo a SAE – Secretaria de Assuntos Estratégicos (da Presidência da República), como classe média quem tem renda familiar per capita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00 mensais. E esse contingente social é 54% da população, o maior do país. Se R$ 291,00 é valor para classe média, e uma família de quatro pessoas está nessa categoria, com uma renda familiar de R$ 1.164,00 estamos mais em pânico do que nunca.

Obviamente, não há como uma família de quatro pessoas, com essa renda, menos de dois salários mínimos, ter casa, carro, estudar, se vestir bem, ter um convênio médico decente etc. E sem isso, não há como se falar em classe média, mesmo que baixa. Uma renda per capita de apenas um salário mínimo já não poderia, em nossa opinião, ser considerada classe média num país com nível de vida dos mais caros do planeta.

Tudo nos EUA, por exemplo, custa bem menos que aqui, e lá a renda per capita é cinco vezes maior que a nossa.

As pessoas estão comendo e consumindo um pouco mais porque o País está lhes dando dinheiro a fundo perdido, via bolsa-esmola, sem que façam algo em troca. Enquanto isso, nossa infraestrutura – portos, rodovias, ferrovias etc. – está destroçada. Nossa matriz de transporte é a pior do mundo. Todo este contingente de pessoas poderia ser alocado para construir portos, rodovias, ferrovias – ganhando e consumindo mais, com dignidade.

Nós investimos 0,49% do PIB  em infraestrutura. A China e Rússia, 5%. A Índia, 4%. Acreditamos que todos ficariam mais felizes, e bem melhor financeira e economicamente, trabalhando pelo País. Bastaria haver investimento na área. Melhorando a infra-estrutura, ficaríamos mais competitivos e o emprego e consumo seriam ainda maiores. E levando benefícios à importante atividade de comércio exterior, em que não somos quase ninguém, com 1,3% do comércio mundial.

Estamos colocando mais gente nas universidades, mas sabemos a que preço: um bom contingente sem a devida preparação básica para isso, já que o ensino fundamental é péssimo. Assim, o nível vai caindo, enquanto a quantidade de universitários e de formados vai aumentando. Melhora a estatística e pioram a cultura e educação.

Há poucos semanas duas matérias da Folha de São Paulo tinham como títulos: “Brasil: Rico ao investir, pobre ao educar” e “Entre os universitários, 38% não sabem ler e escrever plenamente”.

Nossos empregos não conseguem ser ocupados adequadamente, o que vai levando o País cada vez mais para o buraco 2020. Em uma olimpíada internacional, em 2011, ficamos, em leitura, matemática e ciências, na 53ª, 57ª e 53% posições.

A China, considerando Xangai, na 1ª posição em todas. A Coreia, que estava na situação igual à do Brasil nos anos 70, está na 2ª posição em tudo.

O funcionalismo público aumentou significativamente nos 10 anos passados. E seus aumentos salariais foram bem maiores que os da sociedade “comum”, inflando mais ainda os gastos públicos.

Os desvios financeiros são recordes na história nacional. E temos  a mais elevada carga tributária  do mundo. Está, por ora, em 36% do PIB. Era de 13% em 1948 e de 22% em 1989. Cresce todos os anos, retirando da população a renda  que deveria ir para o consumo. E não vale citar alguns países europeus com carga tributária absoluta maior que a nossa: lá ha retorno. A nossa é a maior do mundo em termos relativos. E até absolutos, se tivermos que dar ao governo o suficiente para nos proporcionar, pelo menos, a saúde, educação e segurança que não nos são dados com os impostos pagos. Nesse caso, ela está por volta de 45/50%, maior do mundo também em termos absolutos.

Para compararmos apenas com alguns países, nos EUA ela é de 24%; no Japão. 28%; no Chile, 18%;  na Suíça, 30% e no Canadá, 31% segundo a OCDE/IBPT 2009.

Em face da nossa enorme, impagável e crescente dívida interna, que em abril de 2012 chegou a R$ 2,7 trilhões, pagamos em 2011 a bagatela de R$ 237 bilhões em juros, em face da mais alta taxa de juros no mundo. E ela era de R$ 89 bilhões em 1994, R$ 1,1 trilhão em 2002 e R$ 2,4 trilhões em 2010.

E poderá ser, pelo andar da carruagem, entre R$ 4 e R$ 5 trilhões em 2020.

Assim,  em 2020 não haverá dinheiro para  bolsa-esmola, aposentadorias, juros e principal da dívida, para o funcionalismo. A menos que a carga tributária continue crescendo para o nível de  50/60/70% ou mais. O que deixará quase  nada para o consumo e crescimento da economia.

Ou seja, o caos absoluto.

Tudo o que está aqui não é fantasia, mas realidade, e está disponível a todos.

E o que está por vir pode ser um futuro negro. Ou grafite, ceteris paribus.

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