EUA: o custo de uma relação desperdiçada

O Brasil precisa rever com urgência a deterioração de sua relação
com os Estados Unidos. Não por submissão, alinhamento ideológico ou preferência
por determinado governo americano, mas por uma questão objetiva de interesse
nacional
.

Os Estados Unidos representam a maior economia do mundo, um dos
maiores mercados consumidores, o principal centro financeiro global e uma
potência em tecnologia, defesa, energia, inteligência artificial,
biotecnologia, semicondutores e inovação.

Transformar essa relação em uma disputa predominantemente política
significa correr o risco de perder oportunidades que outros países estão
disputando agressivamente.

Os números ajudam a dimensionar o problema.

Em 2025, o comércio de bens e serviços entre Brasil e Estados
Unidos alcançou aproximadamente US$ 135,7 bilhões. Apenas em
mercadorias, os americanos exportaram US$ 54,3 bilhões ao Brasil e importaram
US$ 39,9 bilhões. Ou seja: diferentemente de outras relações comerciais
americanas, os Estados Unidos possuem superávit com o Brasil. Existe, portanto,
interesse econômico dos dois lados em preservar e ampliar esse comércio.

Mas há uma característica ainda mais estratégica para o Brasil.

Entre janeiro e agosto de 2026, aproximadamente 83% das
exportações brasileiras aos Estados Unidos vieram da indústria de transformação
.
São produtos com maior valor agregado, que mobilizam indústria, tecnologia,
engenharia, empregos qualificados e cadeias de fornecedores.

Quando o Brasil perde espaço no mercado americano, portanto, não
perde apenas toneladas exportadas. Pode perder justamente o mercado de que
necessita para fortalecer sua indústria.

E a deterioração já começa a aparecer nos números. No primeiro
semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13%
em comparação ao mesmo período anterior. A participação americana nas
exportações brasileiras recuou de 12,1% para 9,4%. Ao mesmo tempo, novas
medidas tarifárias americanas passaram a atingir parcelas importantes dos
produtos brasileiros.

Nem toda essa perda pode ser atribuída exclusivamente à crise
política entre os dois governos. Existem fatores comerciais, setoriais e
conjunturais. Mas seria igualmente equivocado acreditar que uma relação
diplomática deteriorada não possui consequências econômicas.

O custo maior, entretanto, talvez seja aquele que ainda não
aparece nas estatísticas: o investimento que não veio, a parceria que não
foi construída e a tecnologia que encontrou outro destino.

Em 2025, investidores estrangeiros destinaram US$ 232 bilhões
para adquirir, criar ou expandir empresas nos Estados Unidos. O mundo está
reorganizando suas cadeias produtivas, e Washington busca parceiros para
reduzir dependências estratégicas em áreas como minerais críticos, energia,
defesa e tecnologias emergentes.

O Brasil deveria estar no centro dessa estratégia.

Temos terras raras, lítio, níquel, grafite, nióbio, petróleo,
energia renovável, capacidade agrícola, indústria aeronáutica e posição
geográfica privilegiada no Hemisfério Ocidental.

Em maio deste ano, representantes americanos estiveram no
Ministério de Minas e Energia discutindo justamente cooperação em minerais
críticos e estratégicos, terras raras e transição energética
.

Essas oportunidades não podem ser sacrificadas por divergências
políticas circunstanciais.

Isso não significa que o Brasil deva concordar com todas as
posições de Washington. Muito menos abandonar suas relações com China, Europa,
Índia ou BRICS.

Soberania não é escolher um lado. É possuir
capacidade para negociar com todos.

Da mesma maneira que alertamos para o risco de dependência
excessiva da China, seria um erro transformar os Estados Unidos em adversário
estratégico.

O Brasil precisa construir uma agenda pragmática com Washington:
negociar tarifas, reduzir barreiras comerciais, ampliar acordos de
investimentos, aprofundar cooperação em minerais críticos, fortalecer parcerias
em defesa e segurança, incentivar projetos conjuntos em energia e tecnologia e
criar condições para integrar empresas brasileiras às cadeias produtivas
norte-americanas.

Existem divergências reais entre os dois países e elas devem ser
negociadas com firmeza. A investigação americana pela Section 301 culminou, em
julho de 2026, em tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos
brasileiros.

Mas diplomacia existe justamente para administrar divergências.

Em agosto, Lula e Trump voltaram a conversar e concordaram que
equipes dos dois governos deveriam retomar as negociações comerciais. Esse é o
caminho correto: menos retórica, mais negociação.

O Brasil não deve ser pró-China, pró-Estados Unidos ou
antiqualquer país.

Precisa ser pró-Brasil.

Uma relação ganha-ganha com os Estados Unidos deve preservar nossa
soberania ao mesmo tempo que amplia mercados, investimentos, tecnologia e
segurança econômica.

A China possui seu Projeto de Estado. Os Estados Unidos possuem o
seu.

O Brasil precisa finalmente construir o próprio.

E parte fundamental desse projeto é entender que grandes nações
não transformam parceiros estratégicos em adversários por divergências
circunstanciais. Negociam interesses, defendem posições e constroem
oportunidades.

É disso que o Brasil precisa.

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