O Brasil precisa decidir qual posição pretende ocupar no mundo nas próximas décadas.
Essa decisão não pode mudar a cada eleição, conforme a orientação ideológica do governo de turno. Relações internacionais e comércio exterior são instrumentos de desenvolvimento, segurança e soberania. Por isso, precisam ser tratados como Política de Estado.
Um país com a dimensão territorial, econômica e geopolítica do Brasil não pode organizar sua política externa com base em simpatias políticas, afinidades pessoais entre governantes ou antagonismos circunstanciais.
O critério precisa ser outro:
qual é o interesse do Brasil?
O mundo atravessa uma profunda reorganização econômica. Estados Unidos e China disputam liderança tecnológica e influência global. Europa busca reduzir vulnerabilidades estratégicas. Índia amplia sua presença internacional. Oriente Médio diversifica suas economias. Cadeias produtivas estão sendo redesenhadas e minerais críticos, energia, semicondutores, inteligência artificial, alimentos e defesa tornaram-se temas de segurança nacional.
O Brasil possui ativos extraordinários dentro dessa nova realidade.
Somos potência agrícola, mineral, energética e ambiental. Temos petróleo, terras raras, nióbio, lítio, grafite, água, alimentos, energia renovável e uma base industrial importante. Temos posição privilegiada no Atlântico Sul e relações históricas com América do Norte, Europa, Ásia, África e América Latina.
Mas possuir recursos não é suficiente.
É necessário transformá-los em poder econômico e capacidade de negociação.
Nossa política externa deve começar por uma premissa simples: o Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China.
Precisamos negociar com ambos.
A China é nosso maior parceiro comercial e um importante investidor em energia, mineração, infraestrutura e indústria. Essa relação deve continuar crescendo, mas sem criar dependência excessiva ou permitir que o Brasil permaneça apenas como fornecedor de matérias-primas.
Os Estados Unidos são fundamentais para nossa indústria, investimentos, tecnologia, mercado financeiro, defesa e inovação. Divergências políticas não podem destruir uma relação estratégica construída durante mais de dois séculos.
Com a União Europeia precisamos ampliar comércio, investimentos e cooperação tecnológica. Índia, Japão, Coreia do Sul, Oriente Médio, África e América Latina também devem ocupar posições relevantes em uma estratégia de diversificação.
Diversificar mercados é uma questão de segurança nacional.
Quanto maior a dependência de um único país, mercado ou fornecedor, menor é a autonomia brasileira para defender seus interesses.
O comércio exterior também precisa deixar de ser tratado apenas como consequência da economia.
Ele deve ser instrumento de desenvolvimento.
O Brasil precisa estabelecer metas concretas para aumentar sua participação no comércio mundial, ampliar exportações industriais, inserir pequenas e médias empresas no mercado internacional e transformar nossas vantagens naturais em cadeias produtivas de maior valor agregado.
Não podemos continuar exportando minério para importar tecnologia fabricada com esse mesmo minério.
Não podemos exportar recursos estratégicos sem desenvolver processamento, engenharia, pesquisa e indústria dentro do país.
Nossa diplomacia econômica precisa ajudar empresas brasileiras a conquistar mercados.
Embaixadas e consulados devem ser avaliados também pela capacidade de abrir portas comerciais, atrair investimentos, identificar oportunidades e defender empresas brasileiras.
Da mesma forma, o Brasil precisa negociar mais acordos comerciais.
Enquanto outros países constroem redes de tratados que facilitam o acesso de seus produtos aos principais mercados, empresas brasileiras ainda enfrentam tarifas e barreiras que reduzem sua competitividade internacional.
Política externa também exige segurança jurídica.
O investidor precisa saber que contratos serão respeitados, regras não serão alteradas arbitrariamente e disputas serão resolvidas dentro de instituições previsíveis.
Credibilidade internacional começa dentro de casa.
Outro ponto essencial é separar relações diplomáticas de preferências ideológicas.
Governos passam.
Estados permanecem.
O Brasil deve conversar com governos de direita, centro ou esquerda sempre que houver interesses nacionais envolvidos.
Nossa relação com Washington não pode depender de quem ocupa a Casa Branca.
Nossa relação com Pequim não pode significar alinhamento automático às posições chinesas.
Nossa participação nos BRICS não deve impedir relações profundas com Estados Unidos e Europa.
E nossa proximidade com democracias ocidentais não deve impedir negócios com Ásia, África ou Oriente Médio.
Essa é a maturidade esperada de uma potência.
O Brasil precisa ser previsível, pragmático e independente.
Precisamos saber dizer sim quando houver interesse brasileiro e não quando esse interesse estiver ameaçado.
Política externa não deve produzir aplausos ideológicos.
Deve produzir mercados, investimentos, tecnologia, empregos, segurança e influência internacional.
Este é o princípio que deveria orientar um verdadeiro Projeto de Estado:
negociar com todos, depender de poucos e colocar o Brasil em primeiro lugar.
A China possui sua estratégia.
Os Estados Unidos possuem sua estratégia.
A Europa, a Índia e as demais potências também.
Está na hora de o Brasil deixar de apenas reagir às estratégias dos outros e estabelecer claramente a sua própria.
Porque soberania não é isolamento.
Soberania é possuir força econômica, institucional e diplomática suficiente para escolher o próprio caminho.
E é exatamente disso que o Brasil precisa: uma Política de Estado para Relações Internacionais e Comércio Exterior, construída não para o próximo mandato, mas para as próximas décadas.