A atual crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos não nasceu de um único episódio, nem pode ser explicada simplesmente pela atitude de um presidente, de um governo ou de um acontecimento isolado. Ela é resultado de um processo mais longo de mudanças econômicas, estratégicas e políticas que, gradualmente, reduziram os espaços de convergência entre dois países que historicamente mantiveram relações de grande importância para todo o continente.
Em situações de conflito, existe uma reflexão que merece ser lembrada: a responsabilidade por uma guerra — aqui entendida em sentido figurado, como confronto político e diplomático — não deve ser analisada apenas pela pergunta sobre quem deu o primeiro tiro, mas também por quem, ao longo do tempo, contribuiu para retirar as condições necessárias à paz.
É justamente dessa perspectiva que a atual relação entre Brasília e Washington precisa ser observada.
Uma crise que não começou agora
Nas últimas semanas, a deterioração da relação entre os dois países tornou-se especialmente visível, com novas divergências comerciais, diplomáticas e políticas.
O aumento das tensões, entretanto, não representa um acontecimento isolado. Ele é consequência de um processo de transformação da política externa e, principalmente, da estrutura comercial brasileira ao longo das últimas duas décadas.
Por isso, mais importante do que procurar um único responsável é compreender como Brasil e Estados Unidos foram gradualmente deixando de ocupar, um para o outro, o espaço estratégico que já tiveram no passado.
A transformação do comércio brasileiro
No início dos anos 2000, os Estados Unidos ocupavam uma posição muito mais relevante na pauta de exportações brasileiras.
Às vésperas do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, aproximadamente 25,8% das exportações brasileiras tinham os Estados Unidos como destino. A China, naquele momento, representava apenas cerca de 4,2%.
Duas décadas depois, o cenário mudou profundamente.
Hoje, a participação norte-americana nas exportações brasileiras está próxima de 10%, enquanto a China se consolidou como o principal destino dos produtos brasileiros.
Essa transformação não pode ser interpretada simplesmente como uma decisão política contrária aos Estados Unidos. Ela também é consequência direta da extraordinária expansão da economia chinesa e de sua demanda por commodities brasileiras, especialmente soja, minério de ferro e petróleo.
Mas uma mudança econômica dessa dimensão inevitavelmente produz também consequências estratégicas e geopolíticas.
China: oportunidade econômica e desafio estratégico
A China deixou de ser apenas mais um parceiro comercial e passou a ocupar uma posição central na economia brasileira.
Empresas chinesas ampliaram investimentos em infraestrutura, energia, tecnologia, indústria e no setor automobilístico. Marcas chinesas de veículos elétricos, por exemplo, expandiram rapidamente sua presença no Brasil e passaram a estabelecer produção local.
Para o Brasil, esse investimento representa geração de empregos, capital e novas oportunidades industriais.
Ao mesmo tempo, porém, é necessário observar o tema sob uma perspectiva estratégica.
Uma política externa equilibrada não deveria substituir uma dependência econômica por outra.
O mesmo vale para o agronegócio. A China tornou-se um comprador essencial da produção brasileira, especialmente da soja. Esse mercado trouxe enormes benefícios ao setor agrícola nacional, mas também aumentou significativamente a exposição brasileira às decisões econômicas e comerciais de Pequim.
Diversificar parceiros deve continuar sendo uma prioridade nacional.
O debate sobre o dólar e os BRICS
Outro ponto de crescente divergência com Washington está relacionado ao fortalecimento dos BRICS e à discussão sobre mecanismos financeiros internacionais menos dependentes do dólar.
O Brasil tem defendido maior utilização de moedas locais nas transações internacionais e novos instrumentos de pagamentos entre países emergentes.
Essa posição é legítima dentro de uma política externa soberana.
Entretanto, nos Estados Unidos, parte desse movimento é interpretada como uma tentativa de diminuir a influência internacional da moeda norte-americana e, consequentemente, o poder econômico dos próprios Estados Unidos.
O que para o Brasil pode representar diversificação financeira, para Washington pode ser percebido como uma mudança estratégica.
Essa diferença de interpretação ajuda a compreender parte da crescente tensão entre os dois países.
Venezuela e as diferenças de política externa
As posições brasileiras em relação à Venezuela também contribuíram para ampliar a distância política entre Brasília e Washington.
Historicamente, o Brasil tem privilegiado o diálogo, a negociação diplomática, a soberania e o princípio da não intervenção.
Os Estados Unidos, por outro lado, adotaram em diversos momentos uma política muito mais dura em relação ao governo venezuelano de Nicolás Maduro.
O Brasil tem todo o direito de estabelecer sua própria política externa e decidir com quais países deseja manter relações.
Contudo, quando as posições internacionais de dois parceiros começam a divergir de forma recorrente em temas considerados estratégicos, a relação bilateral naturalmente passa a exigir maior esforço diplomático para evitar que divergências se transformem em antagonismo.
O Irã e o desconforto de Washington
A aproximação diplomática brasileira com o Irã também foi observada com atenção pelos Estados Unidos.
O Brasil historicamente tentou manter canais de diálogo com Teerã e, em diferentes momentos, buscou inclusive exercer algum papel diplomático nas discussões internacionais relacionadas ao programa nuclear iraniano.
Mais recentemente, decisões brasileiras envolvendo relações diplomáticas e militares com o país também provocaram críticas em Washington.
Novamente, isso não significa que o Brasil tenha obrigação de seguir automaticamente a política externa norte-americana.
Soberania significa justamente o direito de estabelecer relações internacionais de acordo com os interesses nacionais.
O problema surge quando a soma dessas decisões passa a criar, no outro lado, a percepção de que deixou de existir apenas independência diplomática e começou a existir um realinhamento estratégico.
Soberania não precisa significar afastamento
É importante destacar que o Brasil tem plena liberdade para escolher seus aliados, seus parceiros comerciais e suas posições internacionais.
Não cabe aos Estados Unidos determinar com quem o Brasil deve manter relações.
Da mesma maneira, entretanto, os Estados Unidos também formulam sua política externa conforme aquilo que entendem ser seus próprios interesses estratégicos.
É nesse encontro de interesses, muitas vezes divergentes, que a diplomacia se torna indispensável.
O problema não é discordar. O problema é permitir que a discordância destrua os canais de diálogo.
A responsabilidade também não é apenas brasileira
Seria incorreto atribuir a deterioração da relação exclusivamente ao Brasil ou ao atual governo brasileiro.
Nos últimos anos, Washington também adotou posições que provocaram forte reação em Brasília.
Questões tarifárias, declarações sobre assuntos políticos e judiciais internos brasileiros, medidas envolvendo vistos e o uso de instrumentos econômicos como forma de pressão contribuíram para o agravamento do ambiente bilateral.
O governo brasileiro considera algumas dessas atitudes uma interferência indevida em assuntos internos.
Portanto, a atual crise não pode ser explicada de maneira simplista como resultado das escolhas de apenas um dos lados.
Ela é fruto de decisões, percepções e reações acumuladas por ambos.
Quando a retórica substitui a diplomacia
Outro fator preocupante é o aumento da temperatura das declarações públicas.
Quando líderes políticos, ministros e autoridades passam a utilizar linguagem cada vez mais dura, o espaço disponível para negociação diminui.
Críticas públicas podem ser legítimas, especialmente quando existem divergências reais entre governos. Mas a diplomacia não pode funcionar como uma competição para determinar quem produz a declaração mais contundente.
Governos precisam deixar sempre aberta uma porta para conversar.
Porque, no final, crises internacionais dificilmente são resolvidas por discursos. São resolvidas por negociação.
China ou Estados Unidos? Essa não deveria ser a escolha brasileira
Talvez um dos maiores erros estratégicos para o Brasil fosse aceitar a ideia de que precisa escolher entre China e Estados Unidos.
A China é hoje indispensável ao comércio exterior brasileiro.
Os Estados Unidos, por outro lado, continuam sendo essenciais como mercado consumidor, fonte de investimentos, tecnologia, serviços, capital e integração empresarial.
Essas relações não precisam ser excludentes.
Ao contrário.
O Brasil possui tamanho econômico, recursos naturais, capacidade agrícola, base industrial e posição geográfica suficientes para desenvolver uma política externa verdadeiramente multipolar.
Ter boas relações com a China não deveria significar ter relações ruins com os Estados Unidos.
Da mesma forma, fortalecer a parceria com Washington não deveria exigir o afastamento de Pequim.
O interesse nacional deve estar acima da disputa política
O principal objetivo da política externa brasileira deveria ser ampliar mercados, investimentos, tecnologia, empregos e influência internacional.
Isso exige pragmatismo.
A China continuará sendo um parceiro fundamental.
Os Estados Unidos continuarão sendo uma potência econômica, tecnológica, financeira e militar com enorme importância para o Brasil e para todo o continente.
Europa, Índia, Oriente Médio, América Latina e demais regiões também precisam fazer parte de uma estratégia de diversificação.
O melhor cenário para o Brasil é ter mais parceiros, e não trocar parceiros.
Reconstruir as condições para a paz diplomática
A reflexão sobre quem começa uma guerra também se aplica à diplomacia.
Às vezes, o primeiro gesto de confronto é apenas o último capítulo de um processo muito mais longo, no qual as condições necessárias para o entendimento foram sendo gradualmente retiradas.
Brasil e Estados Unidos possuem diferenças legítimas.
Mas possuem interesses econômicos, estratégicos, históricos e humanos grandes demais para permitir que essas divergências sejam transformadas em hostilidade permanente.
Neste momento, talvez a pergunta mais importante não seja quem começou a atual crise.
A pergunta deveria ser outra:
quem terá a capacidade política e diplomática de reconstruir as condições necessárias para encerrá-la?
Para o Brasil, uma política externa madura não deve significar alinhamento automático com qualquer potência. Deve significar independência, pragmatismo e capacidade de conversar com todos.
E, principalmente, a compreensão de que preservar boas relações com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, aprofundar relações com a China não são objetivos incompatíveis — são parte de uma estratégia internacional inteligente para um país com as dimensões e as ambições do Brasil.